Guia: Paulo Cleto A Sala
 
 

A Sala

A final de Montreal caiu na hora errada. Pelo menos para mim. À s 17h, enquanto Djokovic faturava seu nono título da temporada, derrotando o Peixe Americano, que também tem a melhor temporada de sua carreira, somando 53 vitórias e uma única derrota, eu tinha um date o velho Ludwig e Valentina Lisitsa, uma pianista [...]

Notas relacionadas:

  1. Petit garçon
  2. Quarta-feira em Roland Garros
  3. 10 Downing Street

A final de Montreal caiu na hora errada. Pelo menos para mim. À s 17h, enquanto Djokovic faturava seu nono título da temporada, derrotando o Peixe Americano, que também tem a melhor temporada de sua carreira, somando 53 vitórias e uma única derrota, eu tinha um date o velho Ludwig e Valentina Lisitsa, uma pianista ucraniana de primeira linha que nos brindou com o Concerto para piano #3 em Dó Maior, Op 37. A moça, uma loura alta e mãos extremamente longas, finas e delicadas,  foi tão insistentemente aplaudida que nos brindou com uma canjinha; tocou o Fur Elise mais lindo que já ouvi – seus dedos pareciam não tocar o teclado. Quase pedi para a moça ir entregar o gás lá em casa.

Após o intervalo e a descida do piano do palco nos avisaram que os allegros da 5ª Sinfonia do Ludwig seriam substituídos pela Marcha Fúnebre e o Molto Allegro da Eróica. Nenhum drama. Sai de lá flutuando.

A Sala São Paulo é um lugar maravilhoso para concertos; uma antiga estação de trem no centro da cidade, reconstruída para apresentações da Sinfônica de São Paulo. No entanto, o dia de hoje foi da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro.  A reconstrução é uma prova que há vida inteligente mesmo no governo e fica ao lado na Pinacoteca de São Paulo, outro local reconstruído é que nos oferece ótimas exposições – é um dos meus locais favoritos da cidade, apesar de ser bem fora de mão para mim.

No entanto, o local além de interessante é um dos mais curiosos do Brasil.

O que torna um local tão bem bolado e construído – a sala é de alto padrão, amplo e moderno – curioso? A sala faz parte do plano de reconstrução do centro da cidade de São Paulo, decadente a abandonado como tantos centros antigos. Mas, a dois quarteirões do local fica a Cracolândia, o local mais deprimente da cidade, um câncer que até hoje a cidade, o governo e a sociedade não conseguiram extirpar.  Enquanto alguns se deliciam com a magia dos acordes dos anjos, a 100m uma massa de farrapos se arrastam como zumbis que só ouvem os sons do inferno.

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